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sexta-feira

Igrejas infectadas

Texto de Ricardo Gondim.

Aos 25 anos de idade, depois de várias febres, muita rouquidão e um péssimo hálito, dei o braço a torcer e aceitei que o médico operasse as minhas amídalas.

Resisti o quanto pude porque sabia que as amídalas existem para proteger as vias respiratórias. Contudo, o médico conseguiu me convencer de que as minhas estavam imprestáveis; tão infectadas que já não protegiam, mas contaminavam o resto do organismo. Só restava uma opção, arrancá-las fora. A partir daquele dia, aprendi que um órgão – qualquer um – pode perder a sua função original e passar a atacar o corpo.

Nas relações humanas e sociais acontece o mesmo.

Quando se perdem as finalidades originais, morrem casamentos, empresas, igrejas.

Serve o exemplo da família: pai e mãe devem oferecer um ambiente em que os filhos aprendam a ter confiança, segurança, dignidade. Mas quando acontecem muitas brigas com ódio, quando falta paz, aquela família perde a função de fomentar auto-estima e segurança. Assim, deixa de ajudar e passa a desajustar as crianças.

As religiões também podem virar amídalas infectadas. Bastar ver na história. Inúmeras igrejas criaram ambientes doentios e desumanizadores, quando deviam ser espaços de humanização. Devido a este site, recebo milhares de mensagens sobre assuntos variados, a grande maioria, entretanto, pede ajuda.

Muitos não suportam os sermões vazios com promessas mirabolantes e ameaças de maldição. Entristeço, mas fica óbvio para mim que as lógicas e práticas da igreja evangélica não consegue responder às complexidades do século XXI. Os espaços evangélicos estão febris.
É preciso detectar, rapidamente, onde a infecção se tornou aguda para combatê-la com doses maciças de antibióticos espirituais e éticos; com um bom diagnóstico não será preciso operar o foco da contaminação e ainda preservar o organismo.

Estão infectadas as igrejas que priorizam programas e não relacionamentos. Jesus não tratou a “igreja” como uma instituição, mas como uma comunidade. Igreja são mulheres e homens com um estilo de vida nobre, verdadeiro, que inspiram os outros a glorificar a Deus. Portanto, para o seu eterno propósito dar certo, Jesus não precisa de eventos sofisticados, basta que seus seguidores amem uns aos outros.

Estão infectadas as igrejas que priorizam poder e não serviço. Nas Escrituras, poder só tem sentido quando mobiliza para solidariedade, compaixão, humildade. A busca do poder pelo poder é luciferiana em sua essência. Jesus criou o mundo, mas se esvaziou, encarnou e morreu numa cruz. Os cristãos não almejam tronos, mas bacia e toalha para lavar os pés alheios. Sem esperar aplausos, sentem-se privilegiados de servirem.

Estão infectadas as igrejas que priorizam espetáculo e não discrição. Jesus ensinou que não se devem cobiçar os primeiros lugares; considerou que a autêntica piedade acontece num quarto de portas fechadas; falou que a mão esquerda não deve conhecer o que a direita oferece. Quando Jesus ressuscitou uma menina, respeitou a privacidade da família e não deixou que estranhos entrassem para testemunhar o milagre. Sobram exemplos de seu recato. Certamente, Jesus não se agrada de saber que alguns tentam transformar a fé num show.

Estão infectadas as igrejas que priorizam milagre e não coragem existencial. Paulo considerou tudo como esterco pela excelência do conhecimento de Cristo – esse, somente esse, deve ser o alvo da espiritualidade cristã. Não se cultua a Deus para descobrir um jeito certo de “alcançar milagre” ou para ter uma fé mais “eficiente”. No culto, celebra-se o amor gratuito e unilateral de Deus.

O Evangelho é boa notícia porque todos são aceitos sem exigências. Deus quer bem sem fazer distinção; não se ganha o favor de Deus com obras. Graça é o chão onde todos podem alicerçar a vida com liberdade e sem culpa. O cristão não precisa que Deus conserte as dificuldades da vida, basta a sua companhia.

O Apocalipse foi taxativo com uma igreja infectada: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se... Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele. O evangélicos precisaram, como nunca, ouvir esta exortação.

Soli Deo Gloria.

quarta-feira

AVIVAMENTO À BRASILEIRA

(Texto de Caio Fábio no livro Avivamento Total )

"Avivamento à brasileira" é aquele Avivamento que tem muito legalismo, porém não conhece a Santidade. Nele se pode fazer o que não se deveria poder fazer; e não se pode fazer o que se deveria poder.

Este é o "Avivamento à brasileira": é cheio de emoção, entretanto, sem nenhuma conseqüência profunda de mudança de vida na existência daquele que se arrepia nos cultos.
Eu gosto de um arrepio, quem não gosta? Ninguém é de ferro, não é verdade? Aleluia! Oh, glória! Só que a gente pergunta depois: "e o que aconteceu?" Então, dizem que o culto foi uma bênção, que houve cada arrepio... Digo: "Olha, se você tirar a camisa ali na esquina, no ventinho da tarde, também arrepia". Outros me dizem: "O culto foi uma bênção! Havia gente caindo para todo lado. Cada sopro!" A minha pergunta, no entanto, é: "Escute, esse que Caiu no Espírito aprendeu a Andar no Espírito daí em diante? Ele aprendeu a se tornar um ser humano melhor? Ou ele caiu no culto e, em casa, caiu de tapa na mulher? Dependendo das respostas a estas perguntas eu considero a experiência válida ou não. Cair por cair não é comigo. Só vale a pena cair se pode levantar diferente!

"Avivamento à brasileira" é aquele que gosta de manipular o poder de Deus, mas que não aceita se submeter à Palavra do Deus de poder. O perigo é o de cair desmaiado no Espírito, mas não cair consciente diante do Trono de Deus. Isto porque poder espiritual pode até derrubar você, mas só a Palavra ensina você a viver com verdadeira lucidez espiritual.

"Avivamento à brasileira" é aquele que vibra com milagres extraordinários, mas que não vibra com a mesma alegria com relação à prática da justiça e da verdade. Quer ver uma coisa? Acontece comigo todos os dias, quando começo a pregar, e a dizer coisas que Deus faz. Digo: "Deus cura". O povo explode de alegria; "Ele liberta os endemoninhados", o povo pula até o teto; " Ele faz maravilhas na vida dos drogados e tira as prostitutas da prostituição", as pessoas quase babam de alegria. Então, eu digo assim: "Ele julga com justiça os iníquos da terra, e derruba de seus Tronos os governadores corruptos", o povo engole em seco e não diz nada, nem um amenzinho. Ora, "Ele bota o dedo na cara dos presidentes iníquos e os depõe". Ninguém grita aleluia nessa hora. Por que? A Bíblia porventura não diz a mesma coisa? O Deus que cura não é também o Deus da Justiça e da Verdade?

"Avivamento à brasileira" é aquele que celebra os números extraordinários dos que entram pela porta da frente da Igreja, mas que não vê a tragédia dos que estão saindo pela porta dos fundos (a porta dos fundos é mais larga do que a da frente). Li, há algum tempo, aterrado, assustado, apavorado mesmo, uma estatística que mostra uma pesquisa feita em duas instituições: uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro que revela o fato de que os evangélicos são a parcela da sociedade brasileira que mais contribui com a delinqüência juvenil. 42% das crianças que estão em alguns centros da FEBEM são filhos de membros de igrejas evangélicas. E por que é assim? A razão é simples: nós estamos mais preocupados com a possibilidade de que as pessoas venham a se dizer evangélicas, do que com o fato delas viverem ou não de acordo com o evangelho.

"Avivamento à brasileira" é aquele que se contenta em ver pessoas aprendendo a pular para Jesus em nosso cultos, mas que não tem nenhum compromisso de ensinar às pessoas a viver para Jesus no dia-a-dia. Daí haver muito mais festa e pulação no nosso meio, hoje, do que ministração séria da Palavra de Deus. Eu gosto de dar meus pulinhos, gosto muito de música alegre e de cultos arrebatantes. Entretanto, não se pode transformar tais coisas em mera estratégia para fazer a Igreja crescer, descuidando-se daquilo que é essencial: a pregação do arrependimento, da Cruz, da remissão dos pecados, da fidelidade a Deus e do compromisso com o estudo da sua Palavra.

"Avivamento à brasileira" é aquele que põe uma Bíblia nas mãos de cada crente, mas que não lhe infunde o conhecimento da Palavra de Deus no coração. E atenção: quanto mais transformarmos a Palavra de Deus apenas em um Livro, menos nós a teremos no coração. O Livro a gente carrega em algum lugar fora do corpo, a Palavra a gente só carrega no
coração.

"Avivamento à brasileira" é aquele que fala da derrubada dos ídolos pagãos da sociedade, mas que é inoperante quanto às curvas do ego autoglorificado dos líderes da Igreja ao Senhor dos Senhores. "Avivamento à brasileira" é aquele que coa os mosquitos das mais
legítimas alergias humanas, e engole os camelos das mais nojentas disputas de poder, manipulação das consciências e da falta de padrões mínimos de ética cotidiana.

"Avivamento à brasileira" é aquele que ensina que qualquer negócio é válido, desde que o resultado seja a pregação do evangelho. Conversando com um Deputado Federal em Brasília ele me dizia o seguinte: "Olha, eu tive uma surpresa, Pastor. Fui almoçar com um figurão em Brasília, e o senhor não sabe quem chegou lá, num helicóptero: o Presidente da República (aquele do Impeachment). Em conversa com o Presidente, ele me propôs: "Olha, se você fizer um lobby para mim aí, o que você precisar é seu." "Eu sou crente, e preciso muito de umas rádios pra pregar o evangelho no país inteiro." respondi." O que você precisar é seu," ofereceu o Presidente. "Eu vou votar a favor dele pra poder arranjar umas rádios para pregar o evangelho. O que o irmão acha?" perguntou o deputado. "Já vi essa oferta antes." eu lhe disse. "Onde?" perguntou curioso. Lembrei-lhe que no deserto da Judéia, um grande monarca disse: "tudo isto te darei se prostrado me adorares".

"Avivamento à brasileira" é aquele que dá a palavra a autoridades corruptas, mas que nega honra e voz aos santos e simples, mesmo que raros, que ainda existem em nosso meio. "Avivamento à brasileira" é aquele que vem para roubar (o dinheiro do pobre), matar (a alegria das almas mediante o legalismo) e destruir (as emoções humanas mediante à culpa), ao invés de ser para que tenham vida em abundância.

"Avivamento à brasileira" é aquele no qual se grita muito, mas não se chora nada; se canta muito, mas se louva pouco; se ajoelha com muita facilidade, mas se submete a Deus com extrema dificuldade; se prega com muita freqüência contra o pecado, embora o pratique com muita tranqüilidade e cinismo.

"Avivamento à brasileira" é aquele que ensina os cristãos a celebrar a sua abençoada prosperidade material com voracidade, ironia e impiedade em relação à miséria do resto da sociedade, sem compaixão alguma por ela. Há tempos, eu estava tentando motivar alguns líderes evangélicos a contribuir financeiramente com uma tragédia que havia acontecido em
algum lugar. A secretária da AEVB (Associação Evangélica Brasileira) telefonava para essas pessoas em meu nome, quando ouviu de alguém o seguinte: "Olha, diga ao Rev. Caio que eu vou mandar um dinheiro para contribuir, só em consideração a ele. Se não fosse ele que estivesse pedindo, eu não dava. Sabe por quê? Porque miserável, sem Deus, tem que morrer miserável! Não dou dinheiro para pobre sem Deus."Para ele o bem não é para ser feito a todo homem, conforme a Palavra de Deus. Que tragédia!

"Avivamento à brasileira" é aquele que é praticado por líderes evangélicos que proíbem os cristãos, em nome da fé, de fazer escolhas, politicamente lúcidas na história, circunscrevendo toda a importância da Batalha Humana às regiões invisíveis, enquanto eles mesmos, muitas vezes, fazem CABALAS POLÍTICAS aéticas, a fim de se favorecerem pessoalmente da alienação do povo nas instâncias mais concretas da história.

"Avivamento à brasileira" é o que está fazendo a Igreja no Brasil crescer muito, mas sem mudar nada no país. Esse é o Avivamento que tem que se converter em verdadeiro Avivamento, caso contrário, ele será a nossa maior catástrofe em, no máximo, 20 anos.

Preste atenção: se o "Avivamento à brasileira" prevalecer, possivelmente, teremos um país de maioria evangélica, mas cujas expressões de vida serão absolutamente parecidas com as dos períodos da história da cristandade na Europa, onde se tinha um rei cristão, uma corte cristã, um oficialato cristão, um povo cristão, ao mesmo tempo que tinham as mais perversas formas de exploração do próximo, as mais estranhas aberrações religiosas e as mais desavergonhadas associações entre a Igreja e o poder. E ainda, onde se tentava colocar Deus a serviço dos interesses megalômanos dos exploradores da fé. Onde a fé que salvava do paganismo circundante era um inferno que tornava a vida desses "salvos" uma desgraça de existência enferma e sem dignidade.

Concluindo, devo dizer que neste livro vamos estar falando sobre o verdadeiro Avivamento, o único que pode nos salvar desta igreja evangélica que pula muito, mas ora pouco; que tem Bíblias, mas não conhece a Palavra; que faz Batalha Espiritual nas regiões celestiais, mas
que não discerne os espíritos nas feiúras de suas relações humanas; que cresce muito, mas que perde muitos dos que "ganha"; que arrecada muito dinheiro, mas não sabe como usá-lo para a glória de Deus. Sim, somente o verdadeiro Avivamento pode nos salvar da destruição pelo "Avivamento à brasileira".

Caio Fábio, Livro "AVIVAMENTO TOTAL", disponível para download.